Haverá um surto de síndrome de ansiedade de separação pós-pandemia?

Haverá um surto de síndrome de ansiedade de separação pós-pandemia?

Ter os humanos em casa o tempo todo parece um sonho realizado para os cães. Mas o que acontecerá quando a rotina começar a se normalizar?


As mudanças determinadas pela pandemia mundial de Covid-19 construíram uma experiência nova para todos nós, o que torna ainda mais difícil prever o futuro. Mas é unânime, entre os profissionais especializados em comportamento canino, que haverá um aumento significativo na síndrome de ansiedade de separação (SAS), especialmente entre os seguintes grupos de cães:

  • cães que anteriormente sofriam de ansiedade leve ou moderada ou cães que já foram tratados por essa razão;
  • cães recém-adotados e que nunca ficaram sozinhos por muitas horas desde que chegaram à nova casa;
  • cães que não apresentavam sinais da ansiedade por separação previamente, mas, devido à falta de planejamento dos tutores, sofrerão com uma mudança muito brusca da rotina.


É possível tomar medidas desde já para prevenir ou amenizar o problema. Animais de estimação dependem de um grau de previsibilidade no dia a dia para seu bem-estar, portanto, mudanças abruptas de rotina têm impacto sobre eles. Vamos ver quais?

Planeje-se, pensando no futuro

As principais medidas são PLANEJAR e AGIR AGORA.

Ao montar um plano com as orientações abaixo, você terá tempo de avaliar se serão necessárias outras ações, como a contratação de profissionais para ajudá-lo no processo. 

Não “tape o sol com a peneira”. É importante identificar o problema e agir o quanto antes.

Alguns sinais da síndrome de ansiedade por separação incluem (mas não se limitam a):

  • uivos, latidos e choro em excesso;
  • necessidades fora do lugar, mesmo se o cachorro já foi treinado;
  • mastigar ou comer objetos não comestíveis, cavar tapetes e pisos, arranhar portas e janelas;
  • apresentação de respiração ofegante e saliva em excesso (fora do costumeiro para o animal).

Vale lembrar que a destruição de objetos, isoladamente, pode ser um sinal de tédio ou frustração; e não necessariamente de ansiedade. 

Não caia na armadilha de que, com o tempo, o animal vai perceber que os tutores vão retornar para casa. Se for deixada sem tratamento, a SAS costuma piorar. 

Isso constitui uma grande preocupação: ao retornar à rotina, com preocupações financeiras e pressões do ambiente de trabalho, e ainda precisando lidar com comportamentos problemáticos de seus animais, muitas famílias podem decidir abandonar ou entregar seus cães a outras pessoas. Mais do que nunca, precisamos prevenir.

Uma das referências mundiais e autora de livros sobre ansiedade por separação em cães, Patricia McConnell, Ph.D., Certified Applied Animal Behaviorist (CAAB), indica três medidas principais:

  1. Sempre manter a calma ao sair e chegar em casa, mostrando ao cão que suas chegadas e partidas não são motivo de empolgação ou ansiedade. Sim, é super difícil não ficar super animado quando chegamos em casa e vemos aqueles rabinhos balançando, mas precisamos ser fortes. O ideal é ficar em silêncio e manter os cumprimentos bem discretos e calmos. Isso não significa que você ama pouco seu cachorro, pelo contrário. E se isso fizer você se sentir melhor antes de sair, diga baixinho para seu cão: “te amo, fique bonzinho”.
  2. Inicie um plano de dessensibilização e contra-condicionamento. A boa notícia é que não é difícil condicionar um cão a se sentir confortável quando você sai de casa. A notícia não tão boa é que, dependendo do cão, é preciso ter foco e energia, qualidades escassas para muitos de nós neste período.

    Como seria esse plano?

Monte um “sistema de vigilância caseiro” com o celular, o notebook, tablet ou câmeras baratinhas. Prepare um brinquedo recheável que seja seguro deixar a disposição do animal quando ele estiver sozinho. Outra opção é oferecer uma das refeições em um comedouro lento ou espalhada pela casa (nos moldes “caça ao tesouro”).

Respeitando todas as normas de segurança, como uso de máscaras e distanciamento social, todos na família devem se ausentar da casa em alguns momentos, deixando o animal em casa sozinho.

Comece saindo por apenas alguns minutos. O ponto de partida depende de como está sua rotina HOJE e de quão dependente é o cão. Se ele nunca ficou sozinho desde que foi para sua casa, então comece bem de leve. E se ele já demonstra sinais de ansiedade por separação, “leve” significa apenas colocar a mão na maçaneta da porta, algumas vezes, sem sair, enquanto ele come petiscos. Ou pegar as chaves e colocar o sapato algumas vezes, até que o animal considere isso como ações normais. 

Para avançar nesse processo, sem causar sofrimento, é importante observar muito bem os sinais que ele emite. Para isso, podemos recorrer às gravações do nosso sistema de vigilância caseiro. As câmera vão ajudá-lo a observar como será o comportamento do cão na sua ausência, ou seja, se ele late/uiva, se vai até a porta repetidas vezes. Outros sinais de alerta são ele não tocar na comida, destruir objetos e arranhar portas e janelas. 

Esse teste vale mesmo para aqueles que já praticavam o teletrabalho/home office antes da pandemia, porque antes da pandemia provavelmente essas pessoas saíam um pouco mais, para ver a família, os amigos, resolver questões cotidianas.

Este processo, apesar de não ser muito complexo, é DELICADO. Qual a “dica” da Tia Lets? Contrate um profissional para ajudá-lo! Além do profissional de adestramento e educação canina positiva, eu sugiro os serviços de passeador (dog walker), pet sitter profissional e creche/escola para cães, mantendo todos os cuidados de higienização. Eles serão grandes aliados na futura retomada, porque esses profissionais e serviços especializados poderão oferecer atividades de enriquecimento da rotina e gasto de energia, ampliando o bem-estar do animal como um todo.

3. Nunca “corrija” com broncas ou castigue. Isso vale para qualquer comportamento de qualquer cão, mas é altamente relevante para a SAS. O cão pode parecer “culpado” ou “saber o que fez” quando você chega em casa e encontra tudo destruído. Mas ele não sabe. Essa postura apaziguadora do animal (confundida com culpa) só aparece porque ele está sentindo medo e quer evitar sua ira. Repreender um animal nessa situação, seja de forma leve ou exagerada, provavelmente fará com que sua próxima saída tenha consequências ainda piores.


Além dessas três medidas principais, é possível pensar em outros aspectos para montar esse plano:

  • Podemos reduzir o nível de ansiedade dos cães no geral, e não só quando estamos ausentes. Conseguimos isso com treinos de comando e circuitos de atividades (dependendo do cão, é claro) e também com desafios mentais propostos pelas ferramentas de enriquecimento ambiental (opções não faltam). Treinos especialmente recomendados para este período são ensinar os comandos “casinha” ou “caminha” e “fica”, com o humano ausentando-se do cômodo por períodos de tempo cronometrados.
  • Deixe a TV ligada em canais específicos para cachorros (DogTV) ou o notebook conectado com playlists do YouTube, como o canal Relax My Dog. Música clássica também pode funcionar bem.
  • Ferramentas coadjuvantes aos treinos e às ausências programadas são o uso do feromônio Adaptil, disponível em difusor e spray no Brasil e no formato coleira, para quem tiver facilidade de comprar fora do país. O produto é uma cópia sintética do feromônio reconfortante emitido naturalmente pela cadela durante a amamentação.
  • Existem nutracêuticos, em pílula ou pó, que também têm efeito relaxante para os cães. Peça orientação ao veterinário.
  • Mais recentemente, tem ficado cada vez mais popular o uso de equipamentos eletrônicos que emitem pulsos eletromagnéticos e prometem acalmar o animal, sem efeitos colaterais (Calmer Canine); e ainda o uso do canabidiol, um composto químico não psicoativo da planta Cannabis sativa. Esses recursos têm sido adaptados do tratamento em humanos e ainda são alvo de estudos mais abrangente em animais não humanos. A indicação sempre deve ser feita pelo veterinário.

Duas curiosidades:

Patricia McConnell é autora do livro “I’ll Be Home Soon: How to Prevent and Treat  Separation Anxiety”, escrito em 2000 e ainda atual. Ela mesma ressalva que há, no livro, a expressão “líder da matilha”, muito comum na época, rs, que será corrigida numa futura reimpressão. Mas todas as técnicas propostas consideram gentileza e reforço positivo. A obra está com desconto especial nesta quarentena.

– Um estudo de 2010 chegou a indicar que o contra-condicionamento não seria válido para casos de ansiedade por separação, mas o trabalho está cercado de falhas, segundo a própria Patrícia.

Referências:

Patricia McConnell: https://www.patriciamcconnell.com/theotherendoftheleash/

Steve Dale / Fear Free Happy Homes: https://fearfreehappyhomes.com/

Pet Sitters International: https://www.petsit.com/professional-pet-sitters-key-to-alleviating-stress-in-pets-post-quarantine

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